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Próximos anos serão fundamentais para virada inovadora no Brasil

Próximos anos serão fundamentais para virada inovadora no Brasil

Quando pensamos no panorama macroeconômico do Brasil e seus desafios para o crescimento, é notória a necessidade que temos de avançar em aspectos relacionados à produtividade, que pouco tem evoluído nos últimos anos, e fechar as lacunas da inovação e das skills relacionadas à força de trabalho. Embora haja alguns movimentos no país, eles ainda são muito tímidos, mesmo levando em consideração as grandes corporações.

Para o Brasil, o maior desafio para evoluir nas áreas de ciência, tecnologia e inovação está em solucionar as limitações de investimentos nesses segmentos, o que está vinculado diretamente a solucionar as recorrentes dificuldades econômicas e estruturais do país.

Na prática, há poucos recursos governamentais destinados a PD&I, o que obviamente restringe a evolução de estudos e pesquisas. Os investimentos em PD&I no mundo ainda são majoritariamente providos pelos governos, pois as iniciativas de pesquisas e inovações que depois serão instrumentos de empresas e da sociedade ainda estão concentradas na área acadêmica. Mesmo com o aumento da quantidade de horas para completar a formação universitária (anos de estudo), não houve reflexo como resultado efetivo em produtividade.

Mas ainda há outros desafios para o Brasil quanto à definição da estratégia para esses investimentos. Embora o plano emitido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações para o período 2016-2022 seja bastante abrangente, abordando diversas necessidades do país em relação às áreas de CT&I, o documento ainda requer uma definição mais clara e objetiva de áreas prioritárias para pesquisas e, consequentemente, o direcionamento de recursos.

Embora todos as áreas estratégicas mencionadas no documento sejam importantes, com recursos escassos como os do Brasil é imperativo sejam definidos segmentos prioritários para que os avanços possam continuar.

A China, por exemplo, definiu o desenvolvimento industrial como prioritário, enquanto a Europa, de maneira geral, tem investido muitos recursos nas questões ambientais e climáticas. Os EUA, por sua vez, historicamente investe em pesquisa aeroespacial e defesa. No Brasil, o setor que mais tem evoluído nos últimos anos tem sido o de agronegócio.

Importante ressaltar que as inovações no Brasil são mais de natureza incremental, enquanto na China se partiu para uma política de inovação geral e, de certa forma, disruptiva, mudando a característica de indústria meramente “copiadora” de produtos para uma indústria efetivamente desenvolvedora de produtos.  Se nada for feito, o cenário brasileiro tende a piorar no período pós-pandemia, seja pela questão econômica, devido ao custo fiscal que a situação tem exigido das contas públicas, ou pela própria necessidade de novas soluções que serão demandadas.

Não se pode negar que os investimentos em soluções de tecnologia estão crescendo, mas ainda não na mesma velocidade do desenvolvimento de softwares e serviços de TI. Parte dessa situação se deve, provavelmente, ao fato de que ainda não surgiu no Brasil um player forte em tecnologia como na América do Norte, na China e até mesmo na Índia. As empresas líderes no país costumam atuar de forma similar, mais focadas em desenvolvimento dos serviços.

É importante notar, no entanto, que mesmos países desenvolvidos, com economias estáveis e recursos disponíveis para investimentos em PD&I, têm adotado uma estratégia de interação crescente entre pesquisas acadêmicas, custeadas pelos governos, e pesquisas privadas, custeadas pelas empresas. O exemplo mais recente que temos nesse sentido é a vacina para a Covid-19 desenvolvida via parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca.

Embora esse exemplo se volte a uma situação específica e particular, considerando a gravidade do momento, demonstra que a pesquisa acadêmica suportada – financeira e tecnicamente – por entes privado pode trazer resultados práticos com uma combinação de qualidade e agilidade.

O cenário criado pela pandemia do novo coronavírus trouxe uma necessidade premente de desenvolvimento de soluções inovadoras, especialmente voltadas à tecnologia, tanto no processo produtivo quanto no processo comercial. Diversas empresas, nesse período, aceleraram ou criaram estratégias para a inclusão de negócios no mundo digital ou, até mesmo, criaram planos emergenciais para atingir esse mercado. Essas necessidades decorrem não só do isolamento social essencial, que definiram e têm criado novos hábitos nas pessoas, mas também da percepção de que a tecnologia como impulso à produtividade e à expansão em mercados ainda não explorados tem papel fundamental.

O mercado consumidor demonstrou sua prontidão para a disrupção digital e para inovações. Prova disso é a adesão aos smartphones e plataformas digitais, redes sociais, direcionamento dos investimentos em mídia digital, crescimento do e-commerce e redes de negócios compartilhadas, assim como o boom dos serviços de delivery pós-pandemia.  O Brasil possui uma população muito engajada com a internet e uma das que mais dedicam seu tempo a serviços digitais, se comparadas a grandes economias como a norte-americana.

Nesse aspecto, as startups têm papel precioso no processo de inovação e evolução dos negócios. A questão de investimentos e desenvolvimento de ecossistemas de startups merece atenção específica, uma vez que esse ambiente, no Brasil, está se estruturando rapidamente mas ainda não alcançou maturidade.  De maneira geral, há muito a evoluir quanto à formação de estruturas de incubadoras e captação de recursos para investimento nesse mercado. Atualmente, algumas iniciativas de hubs de inovação pelas empresas privadas com incubadoras e aceleradoras no país (como CUBO, do Itaú, e InovaBra, do Bradesco) apresentam resultados, mas a maior parte dos investimentos ainda vem do exterior. Há outras dificuldades a serem superadas, em função da burocracia brasileira para a abertura de empresas, carga fiscal e até mesmo a necessidade de formação de profissionais capacitados para essa demanda.

Diante do contexto e das questões apresentadas, entendo que os próximos anos serão fundamentais para que o Brasil faça uma virada e coloque a inovação na pauta do país com um posicionamento estratégico claro. É preciso superar as barreiras e viabilizar o aumento dos investimentos e desamarrar os entraves burocráticos, da legislação e controles. Dessa forma, novas empresas e modelos de negócio poderão surgir e prosperar juntamente com o crescimento e desenvolvimento de profissionais de fato capacitados para atuar na nova economia e liderar a inovação do país.    

Governança & Nova Economia
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