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A época do “re”

A época do “re”

O encerramento da maior crise sanitária que impacta o mundo há mais de um ano ainda está distante, pelo menos até que se atinja uma completa segurança para a plena retomada da atividade econômica. Mas diversas mudanças foram implementadas nas organizações e novas realidades ocuparam antigos espaços. Empresas empregaram ao vocabulário cotidiano um prefixo até então longe das reuniões de governança e das discussões estratégicas: é a época do “re”, de repensar, reinventar, renovar, reagir e readaptar.

Como abordado pela McKinsey no artigo "Da sobrevivência à prosperidade: reinventando o retorno pós-Covid-19”, de maio de 2020, a aplicação desse prefixo aos negócios trouxe uma abordagem legítima de um plano de ataque: resolução, resiliência, retorno, reimaginação e reforma. Uma verdadeira missão de prazo determinado para garantir a sobrevivência dos negócios e a identificação de mecanismos de sustentabilidade futura.

Após um ano da publicação desse artigo, podemos já identificar diversos modelos de negócios bastantes diferentes, novas empresas, segmentos de maior destaque e mudança de foco das organizações. Trata-se da explosão acelerada da transformação digital, da aplicação do sistema de trabalho híbrido com foco em economia dos custos de Real Estate, alta priorização de atividades, otimização de diversas áreas, maior emprego de inteligência de dados, escalabilidade e a visão do momento chamado “consumo da vingança ou teoria das recompensas”, que coincidentemente surgiu na China na década de 1980, logo após a revolução cultural.

Espera-se que, pelo comportamento natural do ser humano, muita gente vai reverter a tendência de apenas consumir itens essenciais e começará a comprar itens de desejo quando a pandemia terminar. Isso é uma oportunidade sem igual para dezenas de setores. É necessário, porém, agir rápido, com a devida preparação e discussão nas pautas de governança e tomada de decisão. Novas janelas de oportunidades se abrem.

Como um importante contraponto, essa transformação da atividade profissional com vários aspectos positivos para os negócios traz consequências importantes para o ser humano, com novas situações que reforçam a pauta “pessoas" da alta gestão: bem-estar, saúde mental, home office, legislação trabalhista (bastante antiga), infraestrutura e desenvolvimento de novas competências. A maneira de atuar, criar, desenvolver, planejar e entregar mudou radicalmente e ainda há uma enorme lacuna para cobrir esses espaços criados na nova realidade. Pela explosão da atividade digital, pode-se citar a escassez de desenvolvedores, uma demanda que cresceu exponencialmente nos últimos 18 meses e ainda terá um enorme espaço no futuro.

Diante de diversos aspectos que a pandemia trouxe para a sociedade, destaco que a alta gestão e os conselhos empresariais passam também por uma transformação. A necessidade de reinvenção dos membros também se faz necessária, tamanha a mudança ocorrida nos últimos tempos. Os temas de ontem já estão obsoletos, decisões estão muito mais focadas no breve futuro, movimentos estratégicos têm menor ciclo, as discussões exigem mais embasamento de dados processados por inteligência associativa, as organizações entram em uma era data driven, ou seja, a mentalidade é outra.

Em seu artigo “2021, a aceleração da evolução analítica”, Ricardo Cappra, pesquisador de cultura analítica e cientista chefe do Cappra Institute, aborda que este ano reflete um crescimento em todas as áreas relacionadas à tecnologia da informação, desde e-commerce, passando por programação, algoritmos e machine learning, até a famosa – mas ainda pouco realizada – Inteligência Artificial.

As empresas de todos os lugares do mundo estão contratando profissionais e serviços para suprir uma expertise que não dominavam até agora, gerando, assim, uma aceleração no mercado de analytics. Isso gerou um movimento data driven no mercado todo, já que as pessoas que não trabalham diretamente com a área de tecnologia da informação, como marketing, recursos humanos e logística, também estão buscando o conhecimento sobre esse mundo dos dados. Afinal, essa se tornou uma habilidade fundamental em todas as partes dos negócios.

Concluo, portanto, que dentre os diversos aspectos citados aqui a alta gestão e os conselhos devem investir na preparação e discussão dos seguintes temas ligados à inovação e à retomada econômica:

• Ambidestria organizacional;

• Gestão de pessoas (visão end-to-end);

• Horizontes de inovação: a organização está estruturada? Execução dos três horizontes da inovação;

• Transformação digital;

• Cultura analítica;

• Novos negócios e ação ágil (exemplo do consumo da vingança, com janelas de oportunidades);

De fato, é um novo momento, que exige a desconstrução de modelos tradicionais e o emprego da mudança de mentalidade. Esses vários pontos surgiram das mudanças rápidas que ocorrem no modo como trabalhamos hoje. As capacidades atuais da alta gestão e governança das organizações são insuficientes para lidar com esta nova realidade, pois há riscos novos que também estão crescendo exponencialmente. Uma nova abordagem de gestão se faz necessária.

Referências:

- “In A Post-Covid World Customers Will Be Revenge Shopping”, Forbes

- “Da sobrevivência à prosperidade: reinventando o retorno pós-COVID-19”, McKinsey

- “McKinsey’s Three Horizons Model Defined Innovation for Years. Here’s Why It No Longer Applies”, by Steve Blank

- “2021, a aceleração da evolução analítica”, Ricardo Cappra

Governança & Nova Economia
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