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2081: Um mundo de gêmeos digitais

2081: Um mundo de gêmeos digitais

 

Em um cenário fictício projetado em um futuro não muito distante, é possível imaginar que muitas das habilidades que temos podem ser substituídas por máquinas como em filmes de ficção científica. Afinal, nosso hardware de carne e osso não pode passar por upgrades já há alguns milhares de anos. 

O que acontece na prática, é que já percebemos a adoção - mesmo incipiente - de aprendizados de máquina. Um primeiro degrau de inteligência artificial em nosso dia a dia. Meu filho, por exemplo, usa a Siri do iPhone ou a Alexa da Amazon para ajudar em tarefas simples da escola. Aliás, esse texto foi escrito por meio de reconhecimento de voz e com correção automática por meio de algoritmos que agilizam (e muito) uma tarefa que até alguns anos era, em grande parte, manual.

No entanto, o que nos traz uma grande preocupação no momento é que tecnologias como essas, que poderiam ser usadas para o bem, são muitas vezes usadas para o mal. Um dos exemplos mais comuns é originado do investimento em pesquisa e desenvolvimento do governo dos EUA, que reserva uma parte massiva para desenvolvimento de tecnologias militares, além da própria Internet como conhecemos hoje, que tem sua origem na criação de um sistema distribuído sem um ponto central de falha.

Tais cenários futuros - até então parte do nosso imaginário - geram grandes desafios em nosso dia a dia, uma vez que alguém que conheça muito bem tais riscos pode se recusar a passar por situações que gerem exposição de dados. Como exemplo, destaco minha ida recente, em 2019, a São Paulo para um evento com o colega de alguns projetos, Marc Goodman, autor do livro Future Crimes e palestrante do TED Global, com a apresentação "Uma visão sobre os crimes do futuro".

Marc havia se programado para embarcar em Guarulhos em um horário restrito para seu voo internacional. O trajeto da Faria Lima até o aeroporto internacional foi organizado de helicóptero, como se tornou, inclusive, corriqueiro na cidade. O fato é que, para a reserva do horário e o registro do seguro da viagem, uma cópia de um documento oficial foi exigida, o que Marc negou enviar digitalmente. 

Tal comportamento, especialmente dele que conheço há algum tempo, é facilmente justificado. Isso porque me recordo das ocasiões em uma de suas aulas em que que comentou sobre sua atuação como consultor do FBI e da Interpol. Afinal, os riscos que conhecemos hoje ele já estuda há alguns anos. 

Outro exemplo recente envolve um colega que, em uma série de reuniões por videoconferência, era o único a trabalhar com a câmera fechada, contrariando a etiqueta recentemente adotada em tempos de pandemia. A alegação - além de, claro, ter a câmera do notebook coberta por uma fita isolante - era de que, com a crescente captura de imagens e sons ao longo de horas de reuniões online, já seria possível a replicação de avatares pessoais, recentemente denominado em alguns momentos como digital twin

Da mesma forma, empresas como a Sonantic já permitem que astros de cinema criem uma voz baseada em inteligência artificial. Val Kilmer, que perdeu a voz após um tratamento contra o câncer, é um exemplo recente da tecnologia. Outro caso é do já falecido chef e astro de TV, Anthony Bourdain, que teve sua voz recriada para trechos de um documentário, levantando, inclusive, discussões éticas em relação ao tema, uma vez que a técnica não foi mencionada pelos produtores. 

Ainda sobre inteligência artificial e novas tecnologias, existem cenários futuros que permitem, por exemplo, concebermos a criação de apresentadores de TV virtuais que possam substituir os repórteres. Da mesma forma, a criação de discursos e afirmações falsas por candidatos nas próximas eleições ou até mesmo a criação de centrais automatizadas de atendimento por voz. Com base em gravações, serão capazes de preparar nossos avatares para atender clientes em chinês ou espanhol, além do inglês que é usado para o treinamento de sistemas da Resemble AI

Há 15 anos, em minha dissertação de mestrado, eu discutia a profundidade de troca de informações e o equilíbrio entre conveniência e privacidade. Em um futuro próximo, poderemos de fato abrir mão de características ainda mais profundas, como nossas memórias ou anseios compartilhados em sessões de terapia para a extensão da vida natural em um gêmeo digital. Atualmente, este cenário é de ficção e essa resposta, só meu neto (ou seu gêmeo digital), poderá trazer. 

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